Dados e mensagens eletrônicas de renomados cientistas são alvo de hackers e vão parar na Internet fora de contexto ou alterados, dando munição aos que alegam que as mudanças climáticas são uma grande armação.
Quando se fala em boatos na Internet ou qual a nova sensação dos blogs e do twitter geralmente se espera que o assunto em questão seja o novo filme dos vampiros adolescentes, algum erro de arbitragem no futebol ou a mulher melancia. Mas não é que o tema mudanças climáticas está tão em voga que é ele que vem provocando o mais recente frisson na rede, em um escândalo que já está sendo chamado de Climategate.
Tudo começou quando um site russo divulgou o que seria 160 MB de dados, incluindo e-mails, da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Em poucas horas essas informações estavam presentes em diversos sites e blogs ao redor do mundo como uma prova da manipulação dos cientistas para convencer o planeta das mudanças climáticas.
A Universidade de East Anglia é uma referência em pesquisas sobre o clima, tendo inclusive publicado na semana passada, o mais extenso relatório já realizado sobre emissões e sumidouros de dióxido de carbono.
O site da Universidade já reconheceu que um de seus servidores foi atacado por hackers e que informações foram roubadas. Porém ressalta que é impossível dizer que parte do que foi publicada em blogs é genuína e que parte foi alterada. Frases apareceriam fora de contexto e com trechos supostamente alterados. A instituição acionou a polícia que instaurou uma investigação criminal.
Teoria da Conspiração
No que seria o trecho mais polêmico dos e-mails, o professor Phil Jones afirmaria em uma mensagem de 1999 que teria completado o “truque” do colega Michael Mann com o intuito de esconder o declínio da temperatura em um determinado ano.
Jones liberou uma nota afirmando que o trecho é verdadeiro, mas estaria fora de contexto e que a palavra “truque” significaria um artifício criativo para achar uma solução para o problema em questão e não uma tentativa de manipular os dados.
“O roubo dessas informações e, acredito, a reprodução delas constituem uma séria atividade criminal. Eu espero que os autores e facilitadores deste ato sejam encontrados e processados com todo o rigor da lei”, disse Jones.
O colunista do jornal britânico The Telegraph, James Delingpole, famoso por suas sátiras e autor do livro Welcome To Obamaland: I”ve Seen Your Future And It Doesn”t Work, divulgou outros trechos dos dados roubados e sugeriu que se trata de mais uma prova que os cientistas estão manipulando evidências e que isto estaria levando a sociedade a acreditar no que ele chama de “grande bobagem das mudanças climáticas”.
Em outra mensagem polêmica, um dos cientistas se refere à morte em 2004 do cético John L. Daily, criador do site Still Waiting For Greenhouse, como sendo “de certa maneira uma boa notícia”.
A comunidade científica não se sentiu abalada com as informações vazadas, muitos descreveram como nada mais do que “cientistas conversando sobre ciências”.
“Pode ser que em alguns momentos os e-mails revelem um comportamento que não deveria ser mostrado em público. Mas temos que separar o que seriam questões pessoais da idéia de que estes cientistas estariam trabalhando de maneira inadequada”, afirmou ao jornal The Guardian Bob Ward, diretor de políticas e comunicação do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment da London School of Economics.
De certa forma, pode ser considerado um bom sinal o fato de que o aquecimento global esteja cada vez mais consolidado como um assunto de relevância, que está no topo da agenda internacional e presente também nas rodas de conversa e nos blogs. O que pode levantar alguma preocupação é o número de pessoas que levam a sério todo esse imbróglio de conspiração de ambientalistas querendo dominar o mundo.
“Se você ler os e-mails dos últimos 10 anos de qualquer organização, irá sempre encontrar algo de suspeito e intrigante. Mas ao contrário do que dizem os céticos, a Royal Society, o US National Academy of Sciences, a Nasa e os principais cientistas do mundo não são agentes de um movimento clandestino global contra a verdade”, concluiu um porta-voz do Greenpeace ao The Guardian.
Fonte: CarbonoBrasil
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