VIDA DIGITAL: Yoani Sánchez, 34 anos, blogueira
A cubana Yoani María Sánchez Cordero queria apenas começar sua terapia ou “exorcismo pessoal”, como diz. Não imaginava que suas consultas poderiam interessar a tantas pessoas – milhares delas.
Após guardar, durante anos, um sentimento confuso e às vezes conflitante – que a clareza de seu discurso não deixa transparecer – em relação a seu país e seu governo, ela abriu um blog em abril de 2007.
Já havia iniciado uma revista (Consenso), em 2004, e um portal (Desde Cuba), pouco antes do blog. Em Geracion Y – o nome do blog faz referência às pessoas que, como ela, tem a letra Y no nome, por influência soviética – Yoani discorre sobre o cotidiano do povo cubano, a escassez de gêneros de primeira necessidade e, é claro, a ausência de liberdade.
O desejo de externar sua insatisfação e frustração, não refletida nos órgãos oficiais da imprensa cubana, amadureceu durante uma estada na Suíça, entre 2002 e 2004, em que Yoani trabalhava no site de uma livraria. “Longe, o sentimento de que é possível fazer algo para mudar as coisas ganharam força”, contou, em entrevista ao Link, por telefone, na semana passada.
De volta a Havana, Yoani buscou na rede um espaço livre para escrever. “A lei cubana não nos impede de dar opiniões na internet”, garante. Talvez por isso, quando, em maio de 2008, Raúl Castro autorizou a venda de computadores, a de máquinas fotocopiadoras, por exemplo, continuou proibida, assim como o acesso à internet. Ironias de uma país em lentíssima adaptação.
TWITTANDO
Atualmente, ela anda encantada com o Twitter – onde ela é @yoanisanchez. “É um serviço muito personalizável, que permite seu uso para inúmeros fins. Aqui, como no Irã, usamos o Twitter como ferramenta de transformação social. Um espaço perfeito para contar de forma rápida e eficiente nossa situação”, defende ela, que tenta twittar ao menos duas vez por dia a partir do seu celular e lamenta não ter tempo para se relacionar de forma mais frequente com os seus quase 15 mil seguidores internacionais.
Para ela, o Twitter permite ampliar sua presença online, antes restrita a seu blog, que é bloqueado em Cuba, e, portanto, não pode ser lido no país, tampouco atualizado por ela mesma.
No entanto, desde maio do ano passado, ela não precisa mais entrar disfarçada nos hotéis a que ia em busca de acesso à internet, luxo distante da realidade local. Agora, ela escreve no laptop, salva os textos e os envia por e-mail para amigos no exterior que tratam de manter o site atualizado. Há também versões traduzidas de seu blog, inclusive em português, mantidas por voluntários.
A repercussão mundial do blog rendeu a Yoani inúmeros prêmios e menções Ela foi citada, pela revista norte-americana Time, como a 31ª pessoa mais influente do mundo e recebeu o prêmio The Bobs de melhor blog. Por este último, ganhou o laptop que usa atualmente.
Apesar de repetir que não pretende sair de Cuba, em todas essas oportunidades lhe foi negado o direito de receber pessoalmente os prêmios.
AGRESSÃO
O reconhecimento conquistado por seu trabalho, que, apesar do grande número de apoiadores também recebe críticas, como do ex-presidente Fidel Castro, não lhe garante uma vida muito melhor em Cuba.
No último dia 6, Yoani conta que foi abordada e agredida por dois agentes cubanos, quando ia, com outros blogueiros, para uma pequena marcha contra a violência em Havana. Teve ferimentos na lombar e passou alguns dias andando de muletas.
Aos críticos afirma que “a televisão, o rádio e os jornais oficiais já fazem o trabalho de falar bem de Cuba. Não teria motivo, portanto, de fazer o mesmo”. E pondera: “Preciso mostrar o outro lado, mas não sou dona da verdade”.
A verdade que os textos de Yoani revela é a de um país em frangalhos (“um capitalismo de Estado”, resume), de um governo ineficiente e das consequências do embargo norte-americano. Suas crônicas mostram, entre muitas outras coisas, que em oposição a tudo que é proibido no país há um forte mercado negro, que ao contrário do costumeiramente repetido a educação e a saúde não vão mais tão bem por lá.
Há um componente fortemente político nos prêmios que recebe, não há dúvida. Isso, no entanto, não tira a relevância da sua manifestação. Yoani vive de trabalhos como guia turística, tradutora e professora de espanhol para estrangeiros. E afirma: “Não me considero opositora, nem tanto dissidente. A história que vivo todos os dias é que nega o discurso oficial”. Yoani não sabe o que deve vir depois da era iniciada há 50 anos com a Revolução Cubana. “Sei, no entanto, que as coisas não podem continuar como estão”.
O blog que deu origem a um livro
O livro De Cuba, Com Carinho (tradução de Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petroni Jr., 208 páginas, R$ 29,90), que a editora Contexto lançou recentemente no Brasil, é uma coletânea de posts publicados no blog Geracion Y, mantido pela cubana Yoani Sánchez, formada em filologia. No livro, ela escreve: “Para evitar endeusamentos e futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu blog é um exercício pessoal de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real”.
E continua: “Meus textos são passionais e subjetivos, cometo o sacrilégio de usar a primeira pessoa do singular e meus leitores sabem que só falo daquilo que vivi”.
Seu texto – bem escrito e desencantado –, convida o leitor a conhecer uma Cuba sem folclores, mais real. Graças ao blog, ela diz, “meus textos fazem o que eu não poderia: mover-se e expressar-se livremente”. Convidada para vir ao Brasil para o lançamento do seu livro, ela teve, como de costume, a autorização negada pelo governo cubano. B.G.
Fonte: Estadão
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